Histórico

Pronunciamento de José Antônio Braga Barros, por ocasião da inauguração da Sala Sul de Minas, em 6 de novembro de 2016. No texto, o professor Braga, como é conhecido na cidade, fala sobre a história de Paraisópolis, desde seus primórdios no final do século 19, citando diversas pessoas que tiveram papel importante na construção e desenvolvimento da região, até chegar a Silo (4 de maio de 1969 – A Cura do Sofrimento) e o surgimento da Sala Sul de Minas da Mensagem.

O discurso foi realizado com a presença de quase duas centenas de pessoas de diversos estados do país (Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, etc) e países (Chile, Itália, Argentina, Espanha, EUA, etc). Confira a seguir:

Tarefa muito difícil, esta que recebi dos amigos da Mensagem de Silo. Em poucas palavras contar a história de minha terra, Paraisópolis, falar sobre a importância desse dia da inauguração da Sala Sul de Minas e saudar os visitantes. Vou começar pelo fim. Sejam bem vindos à Cidade do Paraíso, sejam todos bem vindos à Paraisópolis.

Estamos no Sul de Minas, na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo. Estamos muito próximos de Gonçalves, Itajubá, Pouso Alegre, no lado mineiro. De São Paulo estamos perto de Santo Antônio do Pinhal, Monteiro Lobato, Campos do Jordão, Taubaté, São José dos Campos e todo o Vale do Paraíba.

Estamos bem mais próximos da Cidade de São Paulo do que de nossa capital Belo Horizonte. No dia 24 de dezembro nossa cidade completará 142 anos. Em 1874, ainda com o nome de São José do Paraíso, a vila passou à categoria de cidade. Ainda na condição de vila, em 25 de janeiro de 1872 aqui foi instalada a primeira câmara de vereadores, por causa disso o aniversário da cidade é comemorado nesta data.

Nossa história é consequência da colonização do Brasil, da descoberta do ouro em Minas Gerais, da escravidão dos índios e dos negros africanos. Bandeirantes paulistas, oriundos de Taubaté, vieram para cá, em busca de ouro e dos índios e negros que, fugitivos do cativeiro, escondiam-se desse lado da serra da Mantiqueira, nos Campos de Lima, mais tarde Vila Paraíso. Já tivemos o nome de Formiguinha, São José das Formigas, São José da Ventania, São José do Paraíso. Em 14 de novembro de 1914 recebemos o nome de Paraisópolis. O município tem esse nome há 102 anos.

Nossa cidade sempre foi ligada a nomes místicos, religiosos. Vila do Paraíso, São José das Formigas, São José da Ventania e São José do Paraíso, Cidade do Paraíso, Paraisópolis. São José (o pai do menino Jesus) é o Padroeiro da Cidade. A Igreja Católica teve e tem forte influência sobre a população. Vários padres marcaram épocas por seus carismas e atividades que realizaram na comunidade.

Em 7 de setembro de 1876, dois anos após a vila ter se tornado cidade, aqui chegava para as missões o Frei Caetano de Messina (Itália, Sicília Oriental). Permaneceu por aqui breves e realizadores 40 dias. Mudou os rumos do município com sua liderança. Com a ajuda da população, desde de juiz, fazendeiros, comerciantes, escravos, mulheres e crianças, construiu, em 3 dias, um canal de pedras, com 1.250 metros, trazendo água do Machadão para quatro chafarizes em pontos diferentes da cidade. Fez o cemitério que até hoje existe no final da rua São José, onde construiu uma capela dedicada à Nossa Senhora do Carmo e São Miguel. Aplainou e arborizou praças. Em 33 dias construiu a Santa Casa, onde é o atual Hospital Frei Caetano e Maternidade Santa Tereza.
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Em setembro de 1878 foi nomeado o 7º pároco, para a direção da Paróquia de São José, o padre João Batista do Nascimento Braga, que permaneceu à frente da paróquia por quase 20 anos. Ele concluiu a Capela das Almas iniciada por Frei Caetano e recuperando os registros e anotações de seus antecessores. Organizou o 2º e o 3º livro do Tombo da Igreja. (A Família Braga já estava instalada na cidade, desde os seus primeiros anos). Padre Braga faleceu no dia 12 de agosto de 1897. Seu corpo foi enterrado na Igreja Matriz de São José, no centro da cidade.
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Em 1918, como missionário, o padre José Bengoenchea Orciti, que nasceu na Espanha, chegou à Paraisópolis, para atender os doentes da terrível “Gripe Espanhola”. Ficou por aqui, não mais do que um mês. No dia 9 de dezembro de 1918, ele mesmo faleceu com a doença. A gripe o martirizou. Seu túmulo até hoje é muito visitado e velas são acesas pelos fiéis.
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Monsenhor Antônio Olinto de Paiva Dutra, ou simplesmente, Monsenhor Dutra é outro sacerdote reconhecido por suas virtudes. Existe um movimento na paróquia buscando a sua canonização. Em 7 de julho de 1929 tomou posse aqui, como 0 21º pároco, onde permaneceu até 1952, quando faleceu no dia 26 de junho. Além da dedicação aos pobres, gostava de música, fazia parte da banda, compôs vários dobrados e hinos. Amante da poesia escreveu o livro “Minhas Esmeraldas”.
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Peço a ajuda de dois leitores, para socializarem dois “causos”, que recentemente foram publicados no jornal O Vento. O primeiro sobre Monsenhor Dutra. O segundo, mostrando que nem tudo foi um “mar de rosas”. O Conservadorismo e o preconceito também marcou a nossa história. Felizmente isso já foi superado e hoje na terra de São José, convivem várias religiões diferentes e ateus.
Outro padre que marcou muito a minha geração, nos chamados grupos de jovens, foi o padre Omar Muniz Cyrillo, que esteve à frente da igreja em Paraisópolis de 1972, até 1975, quando faleceu, em um domingo de Ramos.
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Duas outras grandes influências da Igreja Católica, em Paraisópolis são: O Colégio Santa Ângela inaugurado oficialmente em 1943, que vem formado jovens há 73 anos. E a Irmã Maria Mildner, reconhecida como a mãe dos pobres, que embora Ursulina, desviou-se das atividades educacionais de maneira formal e dedicou sua vida aos mais pobres e necessitados de nossa cidade. Ela viveu em Paraisópolis de 1965 até 2006, quando faleceu. Deixou uma instituição que continua sua obra social.
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Agora, falo sobre a importância do dia de hoje, 6 de novembro de 2016, com a inauguração da Sala Sul de Minas.
Foi um percurso de quatro anos, que começou com o Paulo Arthur, nos apresentando a Margarete, o Edmundo, o Alexandre. Ficamos conhecendo a Mensagem de Silo, trouxemos dois filmes para serem apresentados no Cineclube, fizemos encontros, visitas e palestras. Encontramos diversos grupos distintos, de brasileiros e estrangeiros e aqui estamos.

Estamos inaugurando s Sala Sul de Minas, com um ato público. Vivemos, mais uma vez, um momento muito difícil no Brasil e na América Latina. A força do capitalismo avança através do sangramento da economia, com a esterilização dos recursos pelo sistema da drenagem econômica que deveria servir aos fomentos produtivos, mas que só alimenta a ciranda financeira. Vivemos em uma época em que o individualismo e o consumismo é estimulado em detrimento da cooperação, do companheirismo, da colaboração.

A lógica imposta é a de que é preciso trabalhar mais, para possuir mais, comprar mais e nunca ter o que satisfaça.
O povo trabalha, mas os seus recursos são drenados pelos crediários, pelos juros bancários e pela “financeirização” mundial, que ao contrário de fomentar bons projetos produtivos, enriquecem os atravessadores que travam propositalmente a economia.

Nós, países latinos americanos não podemos crescer. Existe, intencionalmente o propósito da nossa desindustrialização, perpetuando a nossa dependência ao chamado primeiro mundo. Hoje, ao inaugurar esta Sala de Meditação, aqui na serra da Mantiqueira, no Sul de Minas precisamos buscar as raízes desse evento.
É preciso voltar a 1969. Olhar para a Argentina, para Mendoza, Exatamente para Punta de Vacas, bem pertinho do Chile, um lugar afastado da cidade. (Até porque a ditadura proibia qualquer ato público na cidade).
E Silo, não propõe, ali, nenhum ato político, não sugere nenhum partido, nenhuma nova religião, nenhuma busca científica, ou alguma forma de Justiça dos tribunais.

Silo propõe a experiência humana do encontro e da meditação. Encontro de um ser humano com outro ser humano. Encontro de Amor, buscado no fundo do coração de cada um e o encontro da sabedoria buscada na profundidade da consciência.

Silo propõe a experiência da alegria do encontro, a experiência da paz compartilhada, da cura de nosso sofrimento, da nossa dor, da nossa tristeza, do nosso temor. Mostra que, além de nosso individualismo, além de nossa mente e de nosso próprio corpo, essa violência do mundo contamina as nossas relações e o próprio meio onde vivemos.
Silo propõe a meditação e a elevação de nossos desejos.

É exatamente para isso, que estamos hoje, aqui, e agora inaugurando esta sala de meditação, que já vislumbro como um Parque de Estudo e Reflexão, um pouco afastado da cidade, para podermos meditar sobre o mundo que temos e o mundo que queremos. Para tomarmos consciência de quem somos e como estamos construindo nossas vidas e nossas relações.

Silo propõe a esperança, a alegria, o amor, a elevação do coração e do espírito e, é claro, também de nosso corpo, nossa saúde e de nossa vida.
Paz, força e alegria!

José Antonio Braga Barros
Inauguração da Sala Sul de Minas
6 de novembro de 2016

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